segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O Cadáver de Lima Barata

Lima Barata entra subitamente na igreja a que frequentava quando vivo, sete dias após sua morte.
Não! Não se aproximem! O que tenho a dizer-lhes é tão putrefacto quanto a minha carne. Tão repugnante quanto o cheiro que exalo. Perto de mim só viverá esses germes que me comem o corpo e os urubus que circulam no Céu.
Enfim, estou livre.
Como é bom estar morto.
Não lhes pareço esteticamente perfeito, admito, mas o que é um pobre cadáver perto de milhares de germes esfomeados? Mesmo assim (ou "por isso", se preferir) é bom estar morto.
Estou livre:
Padre Augusto, nunca confessei-mo que a imagem da Santa Maria (aquela no alto esquerdo da paróquia) tem a tinta do manto azul descascada pela velhice, dando-me uma incontrolável impressão de nudez. E menos ainda contei-lhe que isso sempre me excitou e não foi uma única vez que durante o sexo em prostíbulos, o fazia pensando nela.
Aproveitando o assunto: Eusébia, bia, minha fiel mulher. Eu ia a prostíbulos.Frequentemente.
Eulália, querida filhota. Sempre soube que andava de namorico com a prima do cabral. Na realidade, eu até me desfrutava com a sinfonia sexual que propagava, abafada, do seu quarto nas noites em que chegava cedo em casa. O que posso fazer? É meu instinto (será?).
Cabral, quanto aos lucros do nosso próspero negócio (sim, era próspero), escondi-lhos quase que inteiramente durante os últimos 17 anos. Considerando juros, devo-te US$ 237,044.30 (Duzentos e trinta e sete mil e quarenta e quatro dólares e trinta centavos). Recorra judicialmente, mas se não estou enganado, a confissão de um defunto não terá muita credibilidade no tribunal.
Esperem! Não saiam ainda! Não contei 1% de minha vida. Entretanto tenho só mais algumas póstumas palavras a dizer:
Hoje retornarei ao meu caro caixão sentindo-me mais... humano. Não especificamente por ter-lhes contado tudo isso (pelo contrário, isso me faz sincero demais), mas pelo fato de todos agora me conhecerem. Não conseguiria descansar em paz sem esse real desabafo.
Lima Barata lentamente arrastou-se até o cemitério.
As ruas estão desertas. A cidade está dormindo. Hoje a partir da tarde haverá carnaval. Todos irão dançar e cantar alegremente.
Algumas pessoas, entretanto, permanecerão em casa.

4 comentários:

Nilo Serafim disse...

Notas do autor: não, eu não sou um poeta suicida.

Guilherme Habib disse...

haeuhaeuhaeuhaeuhae...
seu SUICIDA...heauheauhae
aqueles...
muito bom!

Felipe Grandão Viana disse...

Aff
Ficou muito bom cara.
Realmente gostei.

Acho que vc poderia estender mais, ficaria muito bom.

Rodrigo Resende disse...

Bacana...