A natureza criou o homem como um ser, além de tudo, capaz de seguir promessas. Diferente de todos os outros animais, o homem tem a capacidade de realizar, mesmo contra sua vontade, ações que havia por alguma razão prometido. Isso se deve primeiramente pela capacidade de lembrança, (o que o torna um ser “confiável”), e por aquilo que Nietzsche denomina moralidade do costume.
A moralidade do costume é um conjunto de regras sociais que inicialmente nos foram impostas e que posteriormente se torna natural e até óbvio. Forma-se então um “consenso” geral sobre essas regras e junto a ele um sentimento de “liberdade”: O homem se sente livre, pois pode fazer tudo o que acha correto, mas não percebe (ou lembra), que sua definição de certo e errado (bem como todos os valores morais) foi imposta. Seria uma falsa liberdade ou liberdade controlada. Em uma análise mais profunda o que é chamamos de liberdade é, na verdade, nossa capacidade de seguir regras. Analisando a origem da palavra liberdade, vemos que está ligada ao império romano, -Euleteres- onde existiam os “livres” e os “não-livres”(escravos). E porque os escravos eram “não-livres”? Justamente porque não seguiam as regras estipuladas pela aquela civilização.
Como as regras sociais foram impostas ao homem? Através da violência. Os fatos históricos mostram que a maneira mais usada e provavelmente a mais eficaz de impor regras em um ser é a punição e o castigo. Não precisamos, entretanto, olhar muito para trás para achar tais fatos. Tanto na época de Nietzsche, quanto na nossa, a violência é largamente utilizada para ensinar uma pessoa a agir conforme os valores morais da socieade. Uma criança (em geral), por exemplo, apanha para aprender a comportar-se como seus pais querem. E esses apanharam quando criança, e assim retroativamente até épocas muito antigas da nossa sociedade.
“O conceito moral de culpa teve origem no conceito muito material de dívida”. Foi na relação entre credor e devedor que o homem criou a idéia de punição. O credor se sente prejudicado por um devedor negligente e sente o direito de puni-lo como forma de compensação. O homem cria, então, o sentimento de “culpa”, a “má consciência" a partir do momento que percebe (e sofre) que não cumpriu uma promessa. E posteriormente, essa punição recebe ponderações, de forma que o credor puni de maneira tão grande quanto achar que a dívida “exige”.
A relação credor/devedor se baseia fundamentalmente no que foi discutido no primeiro parágrafo: o fato do homem ser um ser capaz de cumprir promessas. Portanto, no estabelecimento da dívida, o credor faz com o devedor um contrato, no qual assegura ao credor algo que o devedor possua caso a dívida não seja cumprida, como sua casa, sua mulher ou uma parte do seu corpo. Isso dá ao credor uma sensação de poder e de satisfação íntima. Vemos ai, a punição entrelaçada à crueldade. Pode-se considerar que simplesmente ao nascer, o homem já estabelece com a sociedade um contrato: seguir as regras que, burocraticamente, são as leis.
O foco da origem dos conceitos morais está, então, nessa esfera de “culpa”, “consciência” “dever”, que por sua vez tem a origem banhada a sangue. O sofrimento do devedor se torna compensação para dívida na medida em que fazer sofrer é altamente gratificante, pois assim é trocado o desprazer do não cumprimento pelo dano, que pode ser chamado de contraprazer.
Diferentemente em outras épocas, o homem hoje tem vergonha de seus sentimentos (como a crueldade), pois tem a má consciência. Essa “vergonha do próprio homem” está entrelaçada aos valores morais cristãos. É comum ouvirmos frases como “o homem é um pecador”, “o homem precisa do perdão de Deus”. Esses valores morais e a má consciência também fragilizaram o homem à dor, tanto física como intelectual. O homem sofre quando tem a “consciência de culpa”.
domingo, 11 de novembro de 2007
Moral Banhada a Sangue (beta)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Baseado no estudo feito sobre a obra "Genealogia da Moral" de Friedrich Nietzsche.
Postar um comentário